O que acontece quando um sistema de recompensas digital se cruza com a ira humana mais pura, aquela que brota não do ódio, mas da injustiça sentida como uma faca entre as costelas? A cena inicial já nos coloca diante de um paradoxo: uma interface holográfica fria, azul, quase estéril, projetando o rosto de uma jovem — Liu Hanyi — com a classificação 'A' brilhando como um selo de aprovação. Mas a câmera, em um movimento deliberado e cruel, corta para seu rosto real: suor na testa, olhos arregalados, dentes cerrados, a boca aberta num grito que não emite som, apenas vibração. É ali que o espectador entende: essa não é uma vitória. É uma ferida exposta. A tecnologia celebra; o corpo grita. E é nesse exato ponto que Demônios? Não! São Garotas Perfeitas revela sua verdadeira natureza: não é sobre poderes ou batalhas épicas, mas sobre a tensão entre o que o sistema *diz* que você vale e o que seu coração *sente* que você merece.
A cidade ao fundo, com suas torres futuristas e portões ornamentados com runas luminosas, não é um cenário neutro. É um palco onde a hierarquia é visível até no chão de concreto. As estátuas de leões de pedra, imóveis e severas, flanqueiam a entrada como guardiãs de uma ordem antiga, contrastando com os hologramas efêmeros que flutuam no ar. Quando Liu Hanyi, com sua jaqueta preta deslizando dos ombros e o corpo ainda marcado por esforço físico, caminha entre os civis comuns — casais abraçados, amigos conversando — ela não é uma heroína celebrada. Ela é uma estranha, uma perturbação. Seus olhos não buscam aplausos; eles vasculham o ambiente, procurando algo que só ela vê. E então, ele aparece: o rapaz de cabelos rosa, Lin Lu, cuja presença é um contraste absurdo. Ele não grita. Ele *sorri*. Um sorriso que, no início, parece arrogante, mas que, à medida que a cena avança, revela-se uma máscara fina sobre uma ansiedade profunda. Ele toca o pulso, e o relógio brilha — não com luz azul, mas com um dourado intenso, quase ofuscante. É o sinal de que ele também passou pelo mesmo ritual, mas saiu com uma classificação 'SS'. Enquanto Liu Hanyi recebe uma espada azul — um símbolo de habilidade, sim, mas também de isolamento — Lin Lu recebe uma régua dourada, um objeto que, no mundo de Demônios? Não! São Garotas Perfeitas, carrega um peso simbólico muito maior: autoridade, reconhecimento, e, ironicamente, uma responsabilidade que ele parece não querer assumir.
A genialidade da direção está na escolha das lentes. Quando Lin Lu olha para o céu e o holograma dourado se forma, a câmera está *atrás* dele, fazendo-nos compartilhar sua perspectiva. Nós vemos o mesmo céu azul, as mesmas nuvens, mas agora filtrado pela lente do sucesso. E então, o céu *se rompe*. Não com fogo, não com monstros, mas com uma fissura negra, elétrica, que se abre como uma ferida no tecido da realidade. É um momento de puro surrealismo, mas que funciona porque foi preparado emocionalmente: a tensão entre os dois personagens, a pressão do sistema, a expectativa do público — tudo converge para aquele instante. A régua dourada, antes um prêmio, torna-se um artefato místico, envolta em chamas vermelhas e amarelas, flutuando como se tivesse vida própria. E é nesse momento que o verdadeiro conflito emerge: não é entre heróis e vilões, mas entre duas formas de lidar com o peso da excelência. Liu Hanyi encara a régua com pavor, com raiva, com uma pergunta não dita: *Por que ele? Por que não eu?* Seu rosto, em close-up, é uma obra-prima de animação — cada gota de suor, cada tremor nas sobrancelhas, cada contração da mandíbula conta uma história de esforço não reconhecido.
E então, o vídeo nos entrega o golpe de misericórdia: os pensamentos de Lin Lu. Em um contraste cômico e profundamente humano, sua mente se transforma em um mundo de *chibi*, onde ele está ao lado de duas garotas — uma de cabelos pretos, outra de cabelos vermelhos — em vestidos de noiva, cercados por rosas e corações. Em outro balão, ele brinca com um gato usando uma touca de inverno. É aqui que Demônios? Não! São Garotas Perfeitas mostra sua alma. Esse não é um personagem vaidoso; é um adolescente assustado, que sonha com coisas simples, com afeto, com momentos triviais de felicidade. Sua 'superioridade' é uma armadura, e o sistema que o premiou com 'SS' não viu isso. Ele não quer ser um deus; ele quer ser visto como um garoto. E é justamente essa vulnerabilidade que o torna tão perigoso — porque, quando ele finalmente se vira para Liu Hanyi, seu rosto, no mundo real, está corado, os olhos brilhando com uma emoção que não é triunfo, mas *vergonha*. Ele sorri, mas é um sorriso trêmulo, quase desculpatório. Ele não está zombando dela; ele está implorando silenciosamente para que ela entenda.
A última sequência é uma sinfonia de silêncios. Liu Hanyi, agora com uma expressão que se dissolve do ódio para uma confusão profunda, olha para ele. Seus olhos, antes cheios de fúria, agora refletem algo novo: dúvida. Ela não sabe se deve odiá-lo ou compreendê-lo. Ao fundo, os civis continuam suas vidas, alheios à tempestade emocional que se desenrola entre os dois. Um homem abraça sua parceira; uma menina segura a mão do irmão. A normalidade é o pano de fundo para a tragédia íntima. E então, Lin Lu, com a régua dourada ainda em sua mão, dá um passo à frente, não em direção à porta iluminada com runas, mas em direção *a ela*. A câmera se aproxima lentamente de seu rosto, e é nesse momento que o espectador percebe: a verdadeira batalha não será travada contra demônios ou inimigos externos. Será travada dentro deles mesmos, na tentativa de conciliar o que o sistema diz que eles são com o que eles realmente sentem. A frase 'Demônios? Não! São Garotas Perfeitas' não é uma piada. É uma declaração de guerra contra a simplificação. As 'garotas perfeitas' não são perfeitas; elas são humanas, falíveis, furiosas, apaixonadas, assustadas. E os 'demônios'? Talvez sejam apenas aqueles que se recusam a ver essa humanidade, preferindo rotular, classificar e premiar com base em critérios que ignoram o coração. O vídeo termina com os três personagens — Liu Hanyi, Lin Lu e o terceiro, o observador silencioso de cabelos escuros — parados diante da porta. A porta não se abre. Ela *espera*. Porque a jornada não é sobre atravessar um portal, mas sobre decidir quem você será do outro lado. E nessa decisão, não há classificações 'A' ou 'SS'. Há apenas escolhas, feitas por pessoas que, apesar de tudo, ainda são capazes de chorar, de sorrir, de sonhar com gatos de touca e casamentos coloridos. É nisso que reside a beleza devastadora de Demônios? Não! São Garotas Perfeitas: ela nos lembra que, mesmo em um mundo regido por algoritmos e hologramas, a única estatística que importa é a batida do próprio coração.

