A cena abre com uma atmosfera carregada de tensão, quase sufocante — um edifício em ruínas, paredes rachadas, trepadeiras escuras como veias mortas agarrando-se ao concreto, e um céu tingido de vermelho sangue, onde uma lua avermelhada paira como testemunha silenciosa de algo que já não é mais humano. Diante dessa paisagem apocalíptica, dois personagens se destacam: uma jovem de cabelos castanhos, vestida com elegância sombria, segurando uma espada azulada que brilha com energia fria, e um rapaz de cabelos rosa-claros, de postura desafiadora, mãos nos quadris, olhar fixo na multidão que o encara. Essa multidão, porém, não é composta por soldados, bandidos ou criaturas sobrenaturais comuns — são *zumbis*, sim, mas não os do tipo lento e estúpido que conhecemos dos filmes antigos. Estes têm ossos expostos, músculos pendentes, olhos vermelhos flamejantes, e, o mais perturbador: estão em formação, como se obedecessem a uma disciplina militar. Eles não avançam. Não rugem. Apenas observam. E então, o rapaz de cabelos rosa levanta a mão ao peito, como se sentisse algo dentro dele — um desconforto? Um chamado? Uma lembrança dolorosa? É nesse instante que a câmera se aproxima de seu rosto, e vemos: ele não está assustado. Está *curioso*. Como se aquela horda fosse apenas um capítulo de um livro que ele já havia lido antes.
Demônios? Não! São Garotas Perfeitas — título que, à primeira vista, parece uma provocação absurda, quase uma piada cruel diante da brutalidade visual que o vídeo apresenta. Mas é justamente essa contradição que faz o universo narrativo ganhar profundidade. O que é “perfeito” aqui? A disciplina dos zumbis? A calma do protagonista? A forma como a jovem, mesmo com a espada pronta, não ataca — ela *observa*, como quem espera o sinal certo para agir. Nada nessa sequência é aleatório. Cada detalhe — desde o colar com pedra verde pendurado no pescoço do rapaz até o bracelete simples em seu pulso — sugere uma história prévia, uma identidade construída com cuidado. Ele não é um herói genérico. Ele é alguém que já viu isso antes. E talvez tenha sido *ele* quem os criou.
A virada acontece quando sua palma se ilumina. Não com fogo, não com eletricidade — com uma luz dourada, quente, quase sagrada. Da luz surge um objeto: uma régua retangular, escura, com padrões ondulantes dourados que lembram nuvens e ondas do mar. A câmera gira em torno dela, revelando inscrições antigas, símbolos que parecem respirar. Um quadro digital futurista aparece, com bordas luminosas, e nele, em caracteres chineses, lê-se: *Tian Gui Chi, artefato raro de nível superior, capaz de confrontar entidades anômalas*. Aqui, o vídeo joga com a dualidade entre o antigo e o moderno — a régua é um artefato tradicional, mas sua descrição é exibida num display cibernético. Isso não é acidente. É intenção. O mundo de Demônios? Não! São Garotas Perfeitas não rejeita a tecnologia; ele a *absorve*, a transforma em parte de seu mito. A régua não é uma arma. É um *instrumento de ordem*. E quando o rapaz a segura, seu sorriso não é de vitória — é de reconhecimento. Ele conhece aquele objeto. Ele sabe o que ele pode fazer. E, mais importante, ele sabe o que *deve* fazer.
A sequência seguinte é uma coreografia de poder e submissão. Ele ergue a régua, e os zumbis, em uníssono, cobrem os olhos com as mãos — não por medo da luz, mas por respeito à autoridade que ela representa. Um deles, mais alto, com um distintivo de polícia ainda preso ao peito rasgado, levanta-se devagar, como se lutasse contra uma força invisível. Seus olhos vermelhos piscam, e por um instante, há algo humano ali — uma memória, um remorso, uma pergunta não respondida. O rapaz aponta para ele. Não com raiva. Com clareza. E o zumbi cai de joelhos, depois de bruços, como se prestasse juramento. Os outros seguem. Um após outro, eles se curvam, não por força, mas por *reconhecimento*. E é nesse momento que entendemos: esses não são inimigos. São *prisioneiros*. Prisioneiros de si mesmos, de uma maldição, de um erro passado. A régua não os destrói — ela os *liberta*, mesmo que temporariamente, da agonia de existir sem alma.
A jovem, até então em silêncio, agora tem os olhos arregalados. Ela não segura a espada com firmeza — seus dedos tremem. Ela não está surpresa pelo poder dele. Está surpresa pela *forma* como ele o usa. Ela esperava violência. Recebeu cerimônia. E é nesse contraste que o vídeo revela sua verdadeira camada emocional: a dor daqueles que lutam com armas, enquanto outros lutam com significado. Ela é a guerreira. Ele é o juiz. E ambos sabem que, neste mundo, a justiça muitas vezes precisa ser aplicada com uma régua, não com uma espada.
Demônios? Não! São Garotas Perfeitas não se limita à ação. Ele flerta com o absurdo, com o teatral, com o *kawaii* — e é justamente aí que sua genialidade reside. Quando a cena muda para o estilo *chibi*, com a jovem sentada no chão, olhos em espiral, fumaça saindo de suas têmporas, enquanto o rapaz, de costas, comanda uma tropa de pequenas figuras pretas (não zumbis, mas *sombras obedientes*), o tom muda completamente. É humor. É alívio. É um lembrete de que, mesmo em meio ao caos, há espaço para o ridículo, para a autoironia. Esse recurso não diminui a gravidade da história — pelo contrário, ele a realça. Porque só quem está realmente imerso na tragédia pode rir dela sem perder a dignidade. E é nesse momento que percebemos: o título não é uma piada. É uma declaração de intenção. *Garotas Perfeitas* não se refere às mulheres do elenco — embora elas sejam fortes, inteligentes e complexas. Refere-se à *perfeição da intenção*, à precisão do gesto, à clareza da escolha. Mesmo quando o mundo está em chamas, há quem saiba onde colocar o pé.
A transição para a sala de controle é brilhante. A mesma cena, agora projetada em um holograma circular, rodeado por oficiais em uniformes futuristas, com painéis de LED e servidores pulsando ao fundo. Eles não estão assistindo a um relatório. Estão *testemunhando* um evento que desafia suas categorias. Um homem grita, outro puxa os cabelos, uma mulher observa com os olhos marejados — não de medo, mas de *reconhecimento*. Ela já viu aquilo antes. Talvez tenha participado. Talvez tenha falhado. A câmera foca no rosto de um oficial mais velho, cujas rugas parecem traçar mapas de batalhas passadas. Sua boca se abre, mas nenhum som sai. Ele não está surpreso. Ele está *aliviado*. Porque, afinal, se alguém conseguiu controlar aquela horda com uma régua… então talvez ainda haja esperança. Talvez o caos possa ser organizado. Talvez a anomalia possa ser *ensinada*.
O vídeo não explica tudo. E não precisa. Ele nos dá pistas: o colar com a cruz invertida e a pedra verde — símbolo de proteção e corrupção ao mesmo tempo; o bracelete que brilha quando ele ativa a régua — indicando uma ligação física com o artefato; as trepadeiras que crescem nas paredes, como se a própria estrutura do edifício estivesse *viva*, reagindo à presença dos zumbis. Tudo isso aponta para um universo onde a linha entre vida e morte, entre ordem e caos, é fina como papel de arroz. E onde a verdadeira batalha não é contra os monstros — é contra a ideia de que eles *são* monstros.
Demônios? Não! São Garotas Perfeitas é, acima de tudo, uma metáfora sobre responsabilidade. O rapaz não mata os zumbis. Ele os *contém*. Ele não os ignora. Ele os *vê*. E ao fazê-lo, ele assume o peso de quem detém o poder de decidir quem merece misericórdia. A jovem, por sua vez, representa a dúvida — a necessidade de agir, mesmo quando não se entende o porquê. Seu choque não é infantil; é filosófico. Ela questiona: *por que poupar quem já está morto?* E a resposta, implícita na cena, é: porque a morte não é o fim da responsabilidade. Enquanto houver um corpo que lembra um humano, há um dever moral.
A régua, no final das contas, não é um artefato de combate. É um instrumento de *medida*. De equilíbrio. De justiça proporcional. E quando ele a ergue, não é para atacar — é para *delimitar*. Para dizer: até aqui. Não além. Essa é a perfeição que o título evoca: não a ausência de falhas, mas a clareza de propósito. Não a pureza, mas a integridade da ação. E é por isso que, mesmo diante de ossos expostos e olhos vermelhos, não sentimos horror — sentimos *respeito*.
O vídeo termina com o oficial mais velho, ainda boquiaberto, enquanto a tela holográfica mostra o rapaz de costas, a régua no ombro, a jovem atrás dele, e os zumbis agora sentados em círculo, como alunos em uma aula de ética macabra. Ninguém ri. Ninguém chora. Todos apenas *assistem*. E nesse silêncio, entendemos: o verdadeiro terror não está nos mortos-vivos. Está na capacidade dos vivos de ignorar o que deveriam entender. Demônios? Não! São Garotas Perfeitas não nos oferece respostas fáceis. Oferece uma pergunta: se você tivesse uma régua celestial, o que você mediria primeiro? A distância entre você e o mal? Ou a extensão da sua própria compaixão?
E é nessa pergunta que o vídeo se torna imortal. Porque, no fim, não importa se são zumbis, demônios ou garotas perfeitas — o que importa é quem decide o que vale a pena salvar. E nesse mundo, onde a lua sangra e as paredes choram, talvez a única coisa verdadeiramente rara não seja a régua… mas a pessoa disposta a usá-la com misericórdia. Demônios? Não! São Garotas Perfeitas não é apenas um título. É um convite. Para olhar além da aparência. Para questionar a narrativa. Para lembrar que, mesmo no caos, ainda há lugar para a ordem — desde que alguém tenha coragem de segurar a régua e dizer: *isso aqui tem limite*.
A cena final, com o oficial puxando os cabelos, suando, gritando em silêncio — ela não é exagero. É realismo emocional. Porque quando você vê alguém dominar o indomável com um objeto tão simples quanto uma régua, a primeira reação não é aplauso. É crise existencial. Você se pergunta: *onde eu estava quando isso aconteceu?* *Por que eu não soube?* *E se eu tivesse uma régua?* É nesse ponto que o vídeo transcende o gênero. Ele não quer entreter. Quer *incomodar*. Quer que você saia da tela e olhe para sua própria vida — para suas próprias “hordas” internas, seus medos que se vestem de razão, suas decisões que se escondem atrás de “não tinha outra opção”. Demônios? Não! São Garotas Perfeitas é um espelho. E o reflexo que ele mostra não é o de um herói — é o de alguém que, mesmo com medo, escolheu segurar a régua. E talvez, só talvez, isso seja o mais perfeito que podemos ser.

