A primeira imagem já nos joga de cabeça no caos — não um caos aleatório, mas um caos *orquestrado*, como se cada fragmento de vidro voando, cada fio de teia violeta pulsante e cada pétala branca suspensa no ar tivesse sido cuidadosamente posicionado por uma mão que entende a poesia da destruição. Três figuras femininas emergem do centro da tempestade: uma com vestido vermelho ensanguentado e olhos vazios, outra em branco rasgado como um véu de noiva profanado, e a terceira, envolta em sombras e correntes, com um sorriso que não pertence a este mundo. Elas não são inimigas genéricas; são *personagens*, com gestos calculados, posturas que revelam hierarquia e até uma espécie de ritualidade. A teia de aranha que as conecta não é apenas um efeito visual — é uma metáfora viva: elas estão tecendo algo maior, talvez um destino, talvez uma armadilha. E no meio disso tudo, um homem de uniforme militar, com medalhas que brilham como ironias, cai de joelhos, segurando a cabeça como se tentasse conter uma explosão interna. Sua expressão não é de medo, mas de *reconhecimento*. Ele já viu isso antes. Ou melhor: ele *sabia* que viria.
A cena muda, e o foco se desloca para uma mulher de cabelos curtos, corpo atlético, capa esvoaçante — ela está em posição de combate, mas seus olhos não estão fixos em nenhum inimigo imediato. Estão fixos *dentro dela mesma*. Há uma tensão entre sua postura agressiva e a hesitação que transparece em seu rosto quando ela levanta a mão ao olho, como se tentasse limpar uma lágrima que ainda não caiu. O vento arrasta detritos ao seu redor, mas ela permanece imóvel, como uma estátua prestes a rachar. Essa é a genialidade de Demônios? Não! São Garotas Perfeitas: ela não conta uma história de heróis contra monstros, mas de pessoas que descobrem que suas próprias emoções são as forças mais devastadoras. A cidade ao fundo não está em ruínas por causa de bombas ou invasões alienígenas — está em ruínas porque alguém *decidiu* que era hora de derrubar as paredes que separavam o real do surreal.
Então entra o protagonista de cabelos rosa — e aqui, o filme (ou série, ou o que quer que seja essa obra híbrida) faz algo surpreendente: ele não é o salvador. Ele não grita, não corre, não ativa nenhum poder oculto na primeira aparição. Ele simplesmente *olha*. E quando o oficial militar o agarra pelo colarinho, gritando com veemência, o rapaz não reage com violência. Ele mantém os olhos fechados, como se estivesse ouvindo uma melodia que só ele pode escutar. A câmera se aproxima lentamente de seu rosto, e ali, no close-up, vemos algo raro em produções deste gênero: *cansaço*. Não é arrogância, não é indiferença — é exaustão emocional. Ele já conversou com demônios, já negociou com fantasmas, já assinou contratos com criaturas que usam vestidos de noiva como armadura. E agora, diante de um homem que parece ter perdido tudo menos a raiva, ele sorri. Um sorriso pequeno, quase imperceptível, mas carregado de significado. É o sorriso de quem entende que a verdadeira batalha nunca acontece nas ruas, mas nos silêncios entre as palavras.
A sequência seguinte é uma das mais inteligentes da narrativa: o oficial, ainda ofegante, retira um caderno e começa a escrever. Não com pressa, não com pânico — com *precisão*. A câmera gira ao redor dele, e de repente, equações matemáticas flutuam no ar, como se o próprio espaço estivesse sendo reescrito por sua caligrafia. Ele não está anotando ordens militares. Ele está *calculando* o caos. Cada símbolo que aparece — integrais, derivadas, notações quânticas — é uma tentativa desesperada de impor lógica a algo que, por definição, é ilógico. E enquanto ele escreve, o rapaz de cabelos rosa observa, e seu rosto muda. A serenidade inicial dá lugar a uma leve surpresa, depois a uma tristeza contida. Porque ele sabe: quanto mais o homem tenta entender, mais ele se perde. A matemática pode descrever uma explosão, mas não pode explicar por que alguém escolheu explodir seu próprio coração.
Aí vem o clímax simbólico: o rapaz ergue os braços, e acima dele, no céu tormentoso, surge uma silhueta luminosa — não de um deus, não de um anjo, mas de uma *família*. Uma casa, dois adultos, duas crianças. Tudo traçado em luz pura, como se fosse um desejo projetado no firmamento. Ele não está invocando poderes cósmicos. Ele está *lembrando*. E nesse momento, a câmera corta para a mulher de cabelos curtos, agora com uma lágrima congelada no rosto, a mão cobrindo a boca como se tentasse impedir que um grito escapasse. Ela não está chorando pela destruição da cidade. Ela está chorando porque reconhece aquela silhueta. Porque, em algum ponto do passado, ela também tinha uma casa. Também tinha risadas no corredor. Também tinha alguém que a chamava de “minha garota perfeita” — antes que o mundo decidisse que ela deveria ser algo *mais*.
E então, a grande reviravolta: as três figuras femininas, antes vistas como vilãs, se aproximam. Mas não para atacar. Para *tocar*. Suas mãos, manchadas de sangue e adornadas com laços vermelhos, se unem às mãos do rapaz de cabelos rosa. A cena é chocante não pela violência, mas pela ternura. Uma delas, a de cabelos brancos e teias de aranha, inclina-se e sussurra algo em seu ouvido — e seu sorriso, embora sinistro, carrega uma intimidade que desconcerta. Ela não é uma entidade demoníaca. Ela é uma *ex-namorada*. Uma ex-irmã. Uma ex-vítima que decidiu se tornar a própria lenda. E quando elas se juntam, formando um círculo de mãos entrelaçadas, o chão racha não por causa de um impacto, mas por causa de uma *promessa* sendo selada. A teia violeta que antes era arma agora se transforma em um véu nupcial. As chamas vermelhas não são fogo de guerra, mas velas de um ritual antigo — um casamento entre o humano e o impossível.
Aqui, Demônios? Não! São Garotas Perfeitas revela sua verdadeira natureza: não é um thriller sobrenatural, nem um drama pós-apocalíptico. É uma fábula moderna sobre o preço da perfeição. Cada uma das garotas representa uma versão distorcida do que a sociedade exige das mulheres: a mártir (vestido branco, sangue inocente), a sedutora (vermelho intenso, olhar hipnótico), a punida (preto e correntes, culpa visível). E o rapaz de cabelos rosa? Ele é o único que as vê como *pessoas*, não como arquétipos. Quando ele levanta o dedo indicador, não está dando uma ordem — está fazendo uma proposta. “E se nós não lutássemos contra o caos? E se o abraçássemos como parte de nós?”
A cena final é absurda, hilária e profundamente tocante ao mesmo tempo: um corvo gigante, com olhos lacrimejantes e uma bolha de diálogo vazia, aparece no meio das ruínas, enquanto as garotas e o protagonista continuam sua cerimônia. O corvo não é um símbolo de má sorte — é um *testemunha*. E quando a câmera se afasta, vemos que o oficial militar e a mulher de cabelos curtos estão lado a lado, ambos com as mãos na boca, olhando para aquela cena com uma mistura de horror e admiração. Porque eles finalmente entenderam: o verdadeiro terror não está nas teias de aranha ou nas chamas. Está na possibilidade de que, mesmo no fim do mundo, ainda haja espaço para um casamento improvisado, para um sonho de casa, para um abraço que não precisa de justificativa.
O que torna Demônios? Não! São Garotas Perfeitas tão memorável não é sua estética (embora ela seja impecável), mas sua coragem em recusar respostas fáceis. Nenhuma das garotas é “redimida”. Nenhuma delas se torna “boa”. Elas simplesmente *existem*, com suas cicatrizes, seus segredos, suas teias e seus vestidos rasgados. E o protagonista não as salva — ele as *acompanha*. Ele não vence o caos; ele dança com ele. E nessa dança, há uma beleza que nenhuma batalha épica conseguiria replicar.
Vale a pena notar como a direção usa o *silêncio* como arma narrativa. Em momentos-chave — quando o rapaz sorri, quando as mãos se tocam, quando a silhueta da família brilha no céu — a trilha sonora desaparece, deixando apenas o vento, o crepitar das chamas e o som suave do caderno sendo virado. É nesses segundos de quietude que a história realmente respira. É ali que entendemos que o conflito não é entre bem e mal, mas entre *esquecer* e *lembrar*. Entre negar a dor e transformá-la em arte.
E então, a última imagem: o grupo inteiro, unido, olhando para o horizonte. O corvo ainda está lá, agora com uma pequena nuvem de pensamento acima da cabeça — um coração desenhado à mão. Ninguém ri. Ninguém chora. Eles apenas *estão*. E nesse estar, há uma promessa não dita: o mundo pode estar em ruínas, mas enquanto houver alguém disposto a erguer as mãos para o céu, ainda há esperança. Não a esperança ingênua de um final feliz, mas a esperança madura de quem sabe que, mesmo entre os escombros, é possível plantar uma flor. Mesmo que ela seja vermelha. Mesmo que ela tenha espinhos. Mesmo que ela cresça dentro de uma teia de aranha.
Demônios? Não! São Garotas Perfeitas não é apenas um título provocativo — é uma declaração de independência. Uma recusa em classificar, em rotular, em simplificar. Cada personagem é um universo em si, cheio de contradições, desejos e feridas que nunca cicatrizaram. E o mais impressionante é que, apesar de toda a fantasia, toda a magia e toda a destruição, o que fica é a sensação de *intimidade*. Como se estivéssemos espiando uma conversa privada entre amigos que decidiram que, se o mundo vai acabar, vão acabar com estilo — e com um bom vestido.
No fim das contas, essa obra não nos oferece respostas. Oferece *perguntas*. Quem decide o que é monstruoso? Quem tem o direito de julgar o que é perfeito? E, acima de tudo: quantas vezes precisamos quebrar para finalmente nos sentirmos completos? A resposta, como sempre, está nas mãos entrelaçadas, no sangue que não é só de dor, mas também de vida, e no sorriso de alguém que, mesmo diante do apocalipse, ainda acredita que vale a pena sonhar com uma casa — mesmo que ela só exista na luz do céu.

