A cena abre com um cenário apocalíptico: ruínas fumegantes sob uma lua vermelha que não é lua — é um olho cósmico, pulsante, cheio de promessas sombrias. O ar está carregado de partículas luminosas, como bolhas de sabão flutuando em câmera lenta, mas com um brilho sanguíneo. No centro, um jovem de cabelos rosa e olhos esmeralda senta-se com elegância sobre os escombros, como se estivesse num salão de chá decadente, não num campo de batalha. Ao seu lado, uma figura feminina de vestes religiosas — mas não santas, não exatamente — jaz no chão, cabeça baixa, cabelos vermelhos e negros divididos ao meio como uma divisão entre dois mundos. Uma placa holográfica flutua ao lado dele, com o símbolo ‘SS’ em dourado e uma barra de progresso que oscila entre 80% e valores absurdos como ‘-11396%’. Isso já deveria ser um alerta: este não é um jogo de RPG comum. Este é Demônios? Não! São Garotas Perfeitas, onde a lógica moral é tão flexível quanto a física do universo apresentado.
A primeira impressão é de ironia crua: a personagem caída, com correntes douradas nos tornozelos e um véu de freira rasgado, parece uma mártir forçada a atuar num musical gótico. Mas quando ela ergue os olhos — ah, aqueles olhos vermelhos, dilatados, com pupilas que parecem buracos negros com reflexos de chamas —, tudo muda. Ela não está derrotada. Está *preparada*. Seus punhos cerram-se, joelhos se dobram, e num movimento que desafia a gravidade, ela salta para frente como se tivesse sido lançada por uma mola invisível. O vento levanta seus cabelos em duas caudas violentas, e sua expressão é pura fúria contida — não a fúria de quem perdeu, mas a de quem ainda tem uma jogada final. Nesse instante, o espectador entende: esta não é uma vítima. É uma peça-chave em um tabuleiro que ninguém mais controla.
Enquanto isso, o rapaz de cabelos rosa sorri. Não é um sorriso amigável. É o tipo de sorriso que você vê antes de alguém puxar o gatilho — calmo, calculista, com um toque de tédio. Ele ajusta o colar com a cruz invertida, toca o choker preto com um anel de prata, e seus olhos brilham com uma luz que não vem da lua. Ele segura um objeto retangular, ornamentado com padrões ondulantes dourados — uma espécie de tabuleta antiga, mas com energia elétrica circulando ao redor como serpentes de fogo. Quando ele a levanta, o ar vibra. Um círculo mágico se forma no chão, com runas que piscam em tons de âmbar e carmesim, e no centro, um vórtice negro sugere uma porta para algo muito pior que o inferno. A câmera gira em torno dele, e por um segundo, vemos seu perfil — lábios entreabertos, como se estivesse sussurrando uma frase que só a personagem caída pode ouvir. E então, ela reage. Não com gritos, mas com lágrimas. Lágrimas reais, grossas, escorrendo pelas bochechas enquanto ela grita, boca aberta, rosto distorcido por dor e raiva. É aqui que o título Demônios? Não! São Garotas Perfeitas ganha sentido: ela não é um demônio. Ela é uma garota que foi moldada por forças que não escolheu, e ainda assim, mantém sua humanidade — mesmo que ela a use como arma.
A sequência seguinte é um contraste brutal: três figuras surgem das sombras — duas em uniformes militares cinzentos, uma em vestido azul com faixa de enfermeira e meias de rede. Eles observam, imóveis, como se estivessem assistindo a um ritual antigo. A mulher de azul, com cabelos pretos presos num rabo de cavalo alto, tem os olhos arregalados, mas não de medo — de reconhecimento. Ela já viu isso antes. Ela sabe o que acontece quando o círculo se fecha. E então, o rapaz de cabelos rosa se levanta, e com um gesto teatral, joga a tabuleta para o alto. Ela paira no ar, envolta em chamas douradas, e ele a agarra novamente, agora com força, como se estivesse prestes a esmagá-la. A garota de vestes religiosas tenta se levantar, mas suas correntes se apertam. Ela cai de novo, dessa vez de bruços, e sua testa toca o chão rachado. As lágrimas continuam. Mas agora há algo diferente nelas: não são apenas de dor. São de lembrança. De culpa. De amor perdido.
O vídeo corta para um close-up de seu rosto, metade iluminada pela luz da lua, metade na sombra. Seus olhos vermelhos refletem não o céu, mas imagens fragmentadas: uma igreja em chamas, mãos segurando uma cruz de madeira, um beijo rápido sob um arco de rosas secas. Esses flashes não são flashbacks — são *memórias implantadas*, como se seu cérebro estivesse sendo acessado por um sistema externo. E de fato, é. A placa holográfica reaparece, agora com caracteres em chinês que piscam em vermelho: 【警告】— *Aviso*. A barra de ‘vergonha’ (sim, *vergonha*, não poder, não saúde) sobe para 99%, e então explode em números aleatórios, como se o sistema tivesse entrado em colapso. Isso é genial: o conflito interno dela não é representado por monólogos ou soluços, mas por uma interface de usuário falhando. Ela não está lutando contra inimigos externos — ela está lutando contra sua própria programação moral. E o rapaz de cabelos rosa? Ele é o administrador do sistema. Ou talvez o único que ainda acredita que ela pode ser *redefinida*.
Em outro momento, vemos uma versão *chibi* dos dois — pequenos, caricaturais, mas com as mesmas expressões intensas. Ele segura a tabuleta como se fosse um controle remoto, e ela, agarrada à sua perna, chora copiosamente, nariz vermelho, olhos inchados, com lágrimas que parecem rios. É uma quebra deliberada de tensão, mas não uma piada. É uma confissão: por trás da fúria e do poder, ela ainda é uma garota. E ele, por mais que pareça um vilão charmoso, também tem um ponto fraco — ele não a mata. Ele a *observa*. Ele a *testa*. Ele até ri, mas nunca debocha. Há respeito ali. Talvez até afeto. E é nesse equilíbrio precário que Demônios? Não! São Garotas Perfeitas brilha: não há heróis puros nem vilões absolutos. Há apenas pessoas (ou entidades) tentando encontrar sentido em um mundo onde até a vergonha é quantificável.
A cena final mostra a garota deitada no círculo mágico, inconsciente ou fingindo, enquanto o rapaz se ajoelha ao seu lado, mão estendida, mas sem tocá-la. A lua vermelha pulsa. As ruínas ao fundo começam a se mover — não por terremoto, mas como se estivessem *respirando*. E então, um novo texto aparece na tela, em letras gigantes e tremulas: ‘Você tem certeza que quer continuar?’. Não é uma pergunta ao personagem. É ao espectador. Porque este não é só um anime. É uma experiência interativa disfarçada de narrativa linear. Cada gesto, cada lágrima, cada erro no sistema de interface, é um convite para repensar o que significa ser ‘perfeito’. Será que perfeição é ausência de falhas? Ou é a capacidade de persistir mesmo quando você está quebrado?
O que torna Demônios? Não! São Garotas Perfeitas tão cativante é justamente essa ambiguidade. A personagem com os olhos vermelhos não é uma vilã. Ela é uma garota que foi ensinada a acreditar que sua única função é sofrer e redimir. O rapaz de cabelos rosa não é um salvador. Ele é um catalisador — alguém que provoca a crise para que a transformação seja possível. E os outros personagens? Eles são testemunhas, sim, mas também são peças do mesmo jogo. A mulher de azul, por exemplo, carrega uma bolsa com uma cruz vermelha — não branca. Um detalhe sutil, mas crucial: ela não é neutra. Ela já escolheu um lado. E ainda assim, ela hesita. Porque, no fundo, todos eles sabem: se ela realmente despertar, nada será como antes. Nem o mundo. Nem eles mesmos.
O uso de cores é intencional até no nível microscópico. O vermelho não é só sangue — é paixão, vergonha, perigo, amor, aviso. O dourado não é só poder — é falsa esperança, tecnologia antiga, promessa que nunca será cumprida. Até as bolhas que flutuam no ar têm significado: são memórias efêmeras, pensamentos que escapam antes de serem capturados. E quando a câmera foca no sorriso do rapaz, notamos que seus dentes estão levemente manchados de vermelho — não de sangue, mas de algo mais sutil: vinho? Tinta? Veneno? A ambiguidade é a arma principal do roteiro.
Há também uma crítica subtil à cultura de *ranking* e *status*. A placa com ‘SS’ não indica superioridade — indica *instabilidade*. Um SS em um sistema que mede vergonha é uma anomalia. É como se dissessem: ‘Este indivíduo é tão perfeito em sua imperfeição que o sistema não consegue classificá-lo’. E isso é profundamente humano. Quantas vezes já fomos rotulados como ‘fracassos’ por não nos encaixarmos em uma métrica que nem nós mesmos concordamos?
A trilha sonora, embora não audível aqui, pode ser imaginada: cordas tensas, batidas de coração sincronizadas com o pulsar da lua, e um coro distante cantando em latim invertido. Cada elemento visual é acompanhado por uma camada sonora implícita, construída através da composição da imagem. Até o modo como os cabelos da garota se movem — em câmera lenta, mas com traços de velocidade — sugere que o tempo está distorcido para ela. Para ele, o tempo é linear. Para ela, é um loop infinito de culpa e redenção.
E então, o grande momento: ela abre os olhos. Não com fúria. Com clareza. Os olhos vermelhos ainda estão lá, mas agora há algo novo neles — uma centelha de decisão. Ela se levanta, devagar, e olha para ele. Não com ódio. Com compreensão. E ele, pela primeira vez, parece surpreso. Não porque ela se levantou — mas porque ela *não atacou*. Ela apenas estendeu a mão. E ele, hesitante, a segurou. Não para dominá-la. Para equilibrá-la. Porque talvez, no fim, a perfeição não esteja em ser impecável — mas em ser capaz de cair e ainda assim estender a mão para quem está ao seu lado.
Isso é Demônios? Não! São Garotas Perfeitas: uma história que usa o gênero de ação sobrenatural como tela para pintar um retrato psicológico devastadormente preciso. Não é sobre batalhas épicas. É sobre o momento em que você decide se vai continuar carregando as correntes — ou se vai usar a própria corrente como ferramenta para quebrar a prisão. E o mais impressionante? Ela não precisa de superpoderes para ser poderosa. Ela só precisa de lágrimas reais, de um olhar que diz ‘eu ainda estou aqui’, e de um sistema que, por mais que tente classificá-la, acaba falhando — porque humanos não cabem em barras de progresso.

