A cena abre com um céu rasgado por um sol vermelho sangue, como se o próprio firmamento tivesse sido costurado com fios de dor e arrependimento. Ruínas esmagadas, paredes rachadas, vigas retorcidas — tudo respira uma quietude pós-apocalíptica, mas não de morte total: há vida aqui, sim, mas uma vida que escolheu vestir-se de ferida aberta, de véu manchado, de sorriso cosido com linha preta. Três figuras femininas cercam um único homem de cabelos rosa-claro, como se ele fosse o centro de um ritual antigo, ou talvez o alvo de uma condenação coletiva. E é nesse instante que a pergunta surge, quase como um sussurro entre os escombros: Demônios? Não! São Garotas Perfeitas — e essa frase não é ironia, é uma declaração de identidade, uma bandeira erguida em meio ao caos.
A primeira delas, à esquerda, veste um vestido de noiva branco, mas seu véu está rasgado, sujo de manchas escuras que não são só lama — são marcas de algo mais antigo, mais visceral. Seus olhos vermelhos brilham com uma luz que não pertence ao mundo dos vivos; sua pele é pálida demais, seus lábios estão costurados em um sorriso que parece ter sido forjado com agulhas de prata e raiva contida. Ela apoia o queixo na mão, como se estivesse avaliando um presente indesejado, mas seus dedos tremem levemente — não de fraqueza, mas de tensão acumulada. Há uma elegância macabra nela, uma graça que nasceu da violência, como uma dança ensaiada em cima de ossos. Ela não grita, não avança — ela *observa*, e isso é muito mais assustador. Quando o vento levanta seu véu, revela-se um pescoço marcado por cicatrizes finas, como se alguém tivesse tentado apagar sua voz, mas falhado. Essa é a personagem que encarna a ideia central de Demônios? Não! São Garotas Perfeitas: ela não é um monstro por natureza, mas por escolha — uma mulher que transformou sua dor em armadura, sua traição em coroa.
À direita, outra figura, vestida em vermelho profundo, com rendas negras e um véu bordado com borboletas que parecem prestes a voar — ou a desaparecer em cinzas. Seu rosto também carrega as marcas da costura, mas aqui há algo diferente: um rubor nas bochechas, como se ainda houvesse calor humano sob a superfície congelada. Seus braços estão cruzados, não em defesa, mas em posse — como se dissesse: *Este corpo é meu, e você não tem direito sobre ele*. Um detalhe crucial: seu colar é um crucifixo invertido, mas não como símbolo de maldade, e sim como protesto. Ela não nega a fé — ela a reivindica, a subverte, a torna sua. Quando ela olha para o homem no centro, não há ódio cego, mas uma mistura de desapontamento e esperança. É como se ela ainda acreditasse que ele poderia voltar, mesmo depois de tudo. Esse contraste — entre a frieza da noiva branca e a chama contida da noiva vermelha — é o coração pulsante de Demônios? Não! São Garotas Perfeitas: elas não são idênticas, não são cópias. Cada uma representa uma resposta diferente à mesma tragédia. Uma se fechou, outra se inflamou, e a terceira… ah, a terceira é onde a verdade realmente começa a sangrar.
No centro, entre elas, está a terceira garota — a mais jovem, a mais selvagem. Seus cabelos são metade preto, metade vermelho, como se sua alma estivesse dividida entre dois mundos. Uma coroa de espinhos crava-se em sua testa, e correntes pendem de seus pulsos, mas ela não as arranca — ela as usa como adorno, como prova de que sobreviveu. Sua boca está aberta num rosnado, presa entre a fúria de uma criança traída e a sabedoria de quem já viu demais. Seus olhos vermelhos não brilham com frieza, mas com chamas vivas — ela ainda sente. E é justamente essa emoção crua que faz dela a peça-chave da narrativa. Enquanto as outras duas representam o que *foi feito* com elas, ela representa o que *elas fizeram* com o que lhes foi dado. Quando ela se vira para o homem, sua postura é de desafio, mas também de súplica silenciosa. Ela quer que ele diga algo — qualquer coisa — que possa justificar o que aconteceu. Mas ele apenas toca o queixo, pensativo, como se estivesse calculando odds em um jogo de cartas. E então, num gesto que parece inocente, mas que carrega o peso de mil promessas quebradas, ele estende as mãos. As três garotas colocam as suas sobre as dele — uma sobreposta à outra, como camadas de história enterrada. As mãos são diferentes: uma com luva de renda, outra com bracelete de prata, a terceira com corrente enferrujada. Mas todas tocam a mesma palma. Nesse momento, o homem sorri — não um sorriso amigável, mas um sorriso que diz: *Eu sei que vocês me odeiam. E ainda assim, vocês ainda me dão sua confiança.*
E é aí que o chão se rompe. Não literalmente — pelo menos não ainda. Mas emocionalmente, sim. A câmera se afasta, revelando que eles estão em uma ilha flutuante de concreto e pedra, suspensa no vácuo, com o sol vermelho como única testemunha. E então, um alerta digital irrompe — uma tela holográfica vermelha, piscando como um coração em parada. As palavras em chinês são traduzidas mentalmente pelo espectador: *Anomalia detectada no núcleo do calabouço. O Rei da Lua Vermelha foi subjugado. O Hospital da Lua de Sangue entrará em colapso iminente.* A mensagem é clara: este não é um cenário real. É um *calabouço*, um nível de jogo, uma simulação. E essas garotas — essas *perfeitas* — são NPCs? Jogadoras? Almas aprisionadas? A ambiguidade é intencional. Demônios? Não! São Garotas Perfeitas não quer responder — quer fazer você questionar. Porque se elas são personagens de um jogo, então quem é o jogador? E se elas são reais, então por que estão presas nessa repetição de dor?
A transição é brutal. De um céu sangrento para um pátio de templo japonês, limpo, sereno, com pinheiros altos e telhados curvados. A luz é natural, suave — quase ofensiva após tanto vermelho. Uma mulher de cabelos negros, presos num coque alto, está de joelhos, mas não em submissão. Seu punho está cerrado, sua respiração é controlada, seus olhos azuis cortam o ar como lâminas. Ela não está pedindo perdão — ela está exigindo justiça. Diante dela, um homem imponente, com tatuagens vermelhas que parecem mover-se sob sua pele, vestindo um quimono aberto que revela músculos marcados por símbolos antigos. Ele é Rafael Gomes, Sacerdote Supremo da Sociedade do Abismo — e seu nome não é dado como título, mas como advertência. Quando ele se inclina, seus olhos vermelhos se abrem, e o ar entre eles se torna denso, como se o tempo tivesse sido substituído por óleo. Ele não fala. Ele *exige*. E ela, mesmo de joelhos, não desvia o olhar. Ela o encara como se já tivesse visto sua verdadeira forma — e não tenha ficado impressionada.
Aqui, o contraste é ainda mais forte. Enquanto as garotas do primeiro ato usam o caos como vestimenta, esta mulher usa a ordem como arma. Seu uniforme é funcional, sem excessos — botas altas, luvas pretas, cinto com uma pistola que parece mais um artefato religioso do que uma arma de fogo. Ela não precisa de véus ou coroas de espinhos para ser temida. Sua força está em sua postura, em sua recusa em quebrar. E quando o Sacerdote Supremo ergue as mãos, e sombras negras começam a girar ao seu redor como um furacão silencioso, ela não recua. Ela estende a mão — não para atacar, mas para *tocar*. Como se quisesse sentir a textura da sua mentira. E nesse gesto, a pergunta volta, mais urgente: Demônios? Não! São Garotas Perfeitas — porque o que é um demônio senão aquele que se recusa a ser compreendido? E o que é uma garota perfeita senão aquela que, mesmo com o mundo contra ela, ainda escolhe levantar a mão?
O vídeo termina com ela estendendo a mão, enquanto o céu acima do templo se turva, não com fumaça, mas com dados digitais — números, códigos, fragmentos de memória. O calabouço está desmoronando. O jogo está prestes a reiniciar. Mas ela não fecha os olhos. Ela olha para frente, e por um segundo, vemos — não sua face, mas o reflexo no vidro de sua arma: três silhuetas, vestidas de branco, vermelho e preto, sorrindo com os lábios costurados. Elas estão dentro dela. Ou ela está dentro delas. Não importa. O que importa é que, mesmo quando o sistema falha, *elas persistem*. Demônios? Não! São Garotas Perfeitas — e essa não é uma frase de defesa. É uma profecia. É o grito de quem decidiu que, se o mundo as chamaria de monstros, então elas assumiriam o título com orgulho, e ainda assim manteriam o coração batendo. Porque perfeição não é ausência de cicatrizes — é a capacidade de dançar com elas, mesmo quando o chão está se abrindo sob seus pés. E se você acha que isso é só mais um *anime* ou mais uma *web drama*, pense de novo. Isso é um espelho. E o reflexo que você vê ali? Pode ser o seu.

