A primeira cena já nos joga de cabeça em um corredor apertado, paredes rachadas, tijolos expostos como cicatrizes antigas — e três rostos colados à fenda na parede, como se o mundo lá fora fosse uma besta prestes a engoli-los. A garota à esquerda, com cabelo escuro preso num rabo de cavalo desgrenhado, segura a borda da abertura com dedos trêmulos, os olhos arregalados, pupilas dilatadas até quase sumirem no branco. Ela não está apenas observando — ela está *sentindo* cada batida do coração alheio como se fosse seu próprio pulso acelerado. Ao centro, um rapaz com cabelo preto bagunçado agarra a própria cabeça, como se tentasse impedir que algo dentro dele explodisse. Suas mãos suam, as unhas cravam-se levemente na testa, e sua boca se abre em um grito mudo, sem som, só tensão pura. A terceira figura, mais ao fundo, cobre a boca com as duas mãos, mas não por pudor — é para conter o soluço que ameaça romper a frágil camada de controle. Gotas de suor escorrem pelo seu rosto, e em seus olhos, além do medo, há algo mais sutil: uma espécie de reconhecimento. Como se ela já tivesse visto aquilo antes. E talvez tenha mesmo.
A câmera então se aproxima — não com pressa, mas com intenção — e foca nos olhos da garota de cabelo castanho. Cada cílio, cada veia fina sob a pele translúcida, cada gota de suor pendurada na sobrancelha como uma promessa de queda iminente. Seus olhos não piscam. Não podem. Porque ali, no reflexo da íris, vemos algo que não deveria estar lá: um lampejo vermelho, distante, mas presente. Um sinal. Um aviso. E então, quando ela finalmente abre a boca — não para gritar, mas para respirar —, o som que sai é quase um suspiro entrecortado, como se estivesse tentando relembrar como se faz isso. Respirar. Viver. Sobreviver.
Mas o verdadeiro choque vem logo depois: os olhos da outra garota, agora em close extremo. Azuis, profundos, com reflexos metálicos que lembram vidro quebrado. Nada de suor. Nada de pânico. Apenas uma calma assustadora, como a de quem já decidiu o que vai fazer *quando* o caos chegar. E ele chega. Com um rugido que não é só som — é vibração, é pressão, é o chão que se parte sob o peso de algo que não deveria existir. Uma criatura surge, envolta em fumaça negra e linhas vermelhas pulsantes, como veias de lava sob a pele de pedra. Um leão. Mas não qualquer leão. Este tem mandíbulas que se abrem além do possível, dentes longos como punhais, e olhos que brilham com a luz de um inferno pequeno, contido. Seu colar é feito de runas antigas, gravadas em metal negro, e cada símbolo parece se mover quando ninguém está olhando. Ele não ataca. Ainda não. Ele *observa*. E nesse momento, a câmera corta para um homem de cabelo rosa, sorrindo como se estivesse diante de um bolo de aniversário. Ele veste um casaco preto largo, um colar com uma cruz invertida e um cristal verde pendurado no peito — não como amuleto, mas como etiqueta. Ele sabe quem é. E sabe quem *ela* é.
Demônios? Não! São Garotas Perfeitas — essa frase não é ironia. É uma declaração de guerra disfarçada de piada. Porque quando o leão se agacha, e o homem estende a mão, não para dominar, mas para *cumprimentar*, percebemos que este não é um confronto entre bem e mal. É um encontro entre iguais. E então, o inesperado: uma gata calico, usando um gorro azul de tricô e uma coroa de espinhos minúscula, é erguida com ternura. Borboletas douradas flutuam ao redor dela, e seus olhos, meio fechados, transmitem uma sabedoria que nenhum humano jamais alcançaria. Ela não tem medo. Ela *entende*. E é nesse instante que a narrativa se divide: de um lado, o caos destrutivo; do outro, a serenidade absurda. Ambos são reais. Ambos são necessários.
A sala hospitalar, agora devastada, revela mais personagens. Duas figuras femininas emergem das ruínas: uma vestida de noiva branca, mas com manchas de sangue secas como tinta, e outra em vermelho intenso, com véu rasgado e borboleta vermelha presa no cabelo. Suas roupas estão rasgadas, mas não por violência — parecem ter sido *escolhidas* assim, como uniformes de uma ordem secreta. A garota em vermelho levanta a mão, e o ar ao seu redor se torna denso, carregado de energia vermelha, como se o próprio tempo estivesse se coagulando. Ao fundo, o leão rosna, mas não avança. Ele *respeita*. E então, o choque final: a garota de cabelo escuro, que estava escondida no corredor, surge novamente — não correndo, mas *voando*, com os braços estendidos, como se estivesse prestes a abraçar o caos. Seu rosto, antes marcado pelo medo, agora exibe uma determinação que beira o fanatismo. Ela não está fugindo. Ela está *retornando*.
A cena exterior é ainda mais impressionante: edifícios em ruínas, nuvens escuras, e uma lua vermelha gigantesca, tão grande que ocupa metade do céu, como um olho vigilante. Nesse cenário apocalíptico, cinco figuras se posicionam em formação — não como soldados, mas como dançarinos em um ritual antigo. E então, do topo de um monte de escombros, surge *ela*: uma garota com cabelo dividido ao meio — metade preto, metade vermelho —, usando uma tiara de espinhos e um vestido que mistura elementos de freira e rainha. Seus olhos são vermelhos, sim, mas não há maldade neles. Há *clareza*. Ela sorri, mostrando caninos levemente alongados, e levanta a mão, como se estivesse prestes a tocar o espectador. A legenda aparece: *Rei Sombrio da Lua Vermelha*. Mas o título é enganoso. Ela não é uma rainha do mal. Ela é a única que entende que o mal não é uma entidade — é uma escolha. E ela escolheu ser diferente.
Demônios? Não! São Garotas Perfeitas — essa frase ganha novo sentido quando vemos a mesma garota, agora em um cenário oposto: céu avermelhado, mas com borboletas luminosas, e ela vestida como uma freira, com correntes douradas ao redor da cintura, cruzes penduradas no pescoço, e um sorriso suave nos lábios. Ela estende a mão, não para atacar, mas para convidar. Para acolher. Para *salvar*. E é nesse momento que percebemos: o verdadeiro horror não está nas criaturas, nem nas ruínas, nem na lua vermelha. Está na incapacidade dos outros de enxergarem a beleza que existe mesmo no caos. A garota em vermelho não é uma vilã — ela é uma guardiã. A garota em branco não é uma vítima — ela é uma testemunha. E o rapaz de cabelo rosa? Ele não é o herói. Ele é o *fio condutor*, aquele que conecta os mundos, que ri quando todos deveriam chorar, porque ele sabe que, no fim, tudo faz sentido — mesmo que esse sentido seja absurdo, poético e perigosamente belo.
O vídeo termina com um close no rosto dele, agora em versão *chibi*, olhos em forma de coração, bochechas coradas, segurando um coração de pelúcia enquanto borboletas de papel voam ao redor. É ridículo. É encantador. É profundamente humano. Porque, afinal, o que é ser perfeito senão aceitar que você pode ser terrível, adorável, assustador e fofo — tudo ao mesmo tempo? A série Demônios? Não! São Garotas Perfeitas não conta a história de monstros. Conta a história de pessoas que decidiram parar de se esconder atrás da normalidade e abraçar sua própria estranheza como uma coroa. E talvez, só talvez, essa seja a única forma real de sobreviver em um mundo onde a lua sangra e os leões usam colares de runas. Afinal, se você não pode vencer o caos, por que não dançar com ele? E se você tem uma gata com gorro e coroa, melhor ainda — ela provavelmente já sabe os passos.
O que mais me impressiona é como a direção visual transforma o terror em poesia. Cada rachadura na parede não é só destruição — é uma linha de partitura. Cada gota de suor não é só medo — é uma nota musical suspensa. E os olhos? Ah, os olhos são o verdadeiro protagonista da obra. Eles não mentem. Eles não fingem. Eles *revelam*. Quando a garota em vermelho estende a mão, não é para atacar — é para dizer: *Eu vejo você. E você me vê também.* Essa conexão silenciosa é mais poderosa que qualquer explosão. Mais forte que qualquer rugido de leão. Porque, no fundo, todos nós já fomos aquelas três figuras no corredor, espreitando o desconhecido com o coração na garganta. A diferença é que, em Demônios? Não! São Garotas Perfeitas, elas não ficam escondidas. Elas saem. Elas enfrentam. Elas *transformam*.
E é por isso que essa série não é só entretenimento — é um espelho. Um convite para olharmos para nossas próprias sombras e sussurrarmos, com um sorriso cansado mas sincero: *Demônios? Não! São Garotas Perfeitas.* E talvez, só talvez, ao dizer isso, a lua vermelha pare de brilhar tanto. Ou talvez comece a brilhar ainda mais — mas dessa vez, com a luz de quem finalmente entendeu que perfeição não é ausência de defeitos, mas coragem para ser inteiro, mesmo quando o mundo está desabando ao seu redor.

