A cena abre com um caos pintado em tons de sangue e fulgor roxo — ruínas, céu rachado como vidro estilhaçado, e no centro, ela: uma figura frágil, mas carregada de uma energia que faz o chão tremer. Seu vestido vermelho está manchado, não só de lama ou poeira, mas de algo mais íntimo, mais pessoal — sangue. Não o dela, talvez. Ou talvez sim. O que importa é que cada mancha conta uma história que ainda não foi dita. Seus cabelos prateados caem como fios de seda cortada por vento violento, e atrás dela, quatro pernas escuras, finas como ossos de ave, se erguem com elegância sinistra, envoltas em teias luminosas que pulsam com eletricidade violeta. Essas não são pernas de aranha comuns — são extensões da própria alma dela, instrumentos de dor e proteção, de vingança e desespero. Ela estende a mão, dedos longos e pálidos, como se buscasse algo — ou alguém — que já deveria estar ali. Mas há um vazio entre seus dedos e o mundo. Um vazio que grita.
Então, uma mão masculina surge do lado esquerdo da tela, firme, decidida, vestida com uma manga escura de casaco longo. Ele não hesita. Segura sua mão. E nesse toque, algo muda. Não é apenas o contato físico — é a quebra de uma barreira invisível, feita de medo, culpa e silêncio. A câmera recua, revelando o rapaz de cabelos rosa, olhos verdes como folhas novas sob luz de luar, e uma expressão que oscila entre determinação e dor contida. Ele não sorri. Não fala. Só segura. E ela, por um instante, parece se lembrar do que é ser tocada sem intenção de ferir. Seus olhos, antes vazios, ganham um brilho roxo — não de poder, mas de reconhecimento. É aqui que o título Demônios? Não! São Garotas Perfeitas começa a fazer sentido: ela não é um monstro. É uma garota que foi forçada a se tornar uma arma, e agora, pela primeira vez, alguém escolhe segurá-la como se ela ainda pudesse ser salva.
A transformação é sutil, mas devastadora. Seus olhos se enchem de lágrimas — não de fraqueza, mas de alívio tardio, de um grito sufocado que finalmente encontra saída. As lágrimas escorrem por suas bochechas, deixando rastros brilhantes contra a palidez de sua pele, enquanto ao fundo, as teias violetas se expandem, formando um halo de energia que parece mais ritual do que ataque. Pétalas cor-de-rosa flutuam no ar, contrastando com o inferno ao redor — um detalhe que não é acidental. É ironia. É esperança disfarçada de poeira. E então, os números aparecem: 12%, em neon rosa, piscando como um coração monitorado em UTI. Doze por cento de quê? De sanidade? De humanidade restante? De tempo até o colapso total? A ambiguidade é proposital. O espectador é convidado a preencher o vazio com seu próprio medo — e é aí que a narrativa se torna pessoal.
Mas o momento de ternura é interrompido por um rugido que não vem de garganta humana. O céu se rasga de novo, e dessa vez, não é um buraco — é uma boca. Uma árvore gigantesca, retorcida, com raízes que se movem como tentáculos, desce do firmamento como se o próprio abismo tivesse decidido tomar forma. Seu tronco é musculoso, coberto de casca rachada e musgo vivo; seus galhos, como braços deformados, se agitam com fúria. No centro do peito, uma luz verde pulsante — o núcleo, o coração, o *espírito*. E na tela, o texto aparece: Ancião do Abismo — SSS+ Espírito Maligno. A classificação “SSS+” não é só um título de jogo — é um aviso. Isso não é inimigo. É cataclismo. É o fim de uma era. E os dois protagonistas, ainda de mãos dadas, viram-se para encará-lo. Não com bravata, mas com resignação. Como quem sabe que a batalha já foi perdida, mas ainda assim decide lutar — porque há algo mais importante do que vencer: é não deixar que o outro seja consumido sozinho.
A câmera corta para outros personagens, e é aqui que a genialidade da direção se revela: cada reação é um microdrama. O homem de armadura negra, com cicatriz no rosto e olhar de quem já viu demais, abre a boca como se fosse gritar — mas nenhum som sai. Sua garganta trava. Ele não está surpreso. Está *reconhecendo*. Reconhecendo o horror, sim, mas também a inevitabilidade. Ao seu lado, a mulher de jaqueta branca, cabelos pretos presos num rabo de cavalo desgrenhado, tem os olhos arregalados, pupilas dilatadas, suor escorrendo pelo templo. Ela não está apenas assustada — está *desintegrando*. Seus olhos giram em espiral, um efeito visual que sugere que sua mente está sendo invadida, reescrita, como se o Ancião não precisasse de força física para dominar: basta existir, e já é suficiente para quebrar a razão. Esse é um dos momentos mais perturbadores da sequência — não há violência direta, mas a violência psicológica é palpável. Ela grita, mas o som é abafado pela poeira e pelo zumbido do abismo. E então, uma mão com luva azul toca sua testa — um gesto de contenção, de tentativa de ancorá-la à realidade. Mas será que ainda há realidade para onde voltar?
Enquanto isso, o rapaz de cabelos rosa não vacila. Ele solta a mão dela — não por abandono, mas por necessidade. Ele precisa agir. E quando ele levanta o dedo indicador, apontando diretamente para a câmera (ou melhor, para *nós*), o gesto não é de ameaça. É de convite. De desafio. De *escolha*. Ele está dizendo: você também está nisso. Você também viu. Você também sabe que não há volta. E é nesse instante que seus olhos brilham com a mesma luz verde do Ancião — não porque ele foi corrompido, mas porque ele *entende*. Ele compreende a natureza do mal não como algo externo, mas como uma sombra que habita todos nós. E talvez, só talvez, a única forma de derrotá-la seja não negá-la, mas integrá-la. É aqui que Demônios? Não! São Garotas Perfeitas se torna mais do que um título provocativo — é uma filosofia. A perfeição não está na ausência de escuridão, mas na coragem de olhá-la nos olhos e ainda assim estender a mão.
A cena seguinte é quase surreal: um velho, curvado, com bengala de madeira, surge entre as raízes da árvore. Ele não corre. Não grita. Só avança, com passos lentos, mas firmes, como se cada movimento fosse uma oração. Seu rosto é marcado pelo tempo, pelas dores acumuladas, mas seus olhos — ah, seus olhos — são intensos, cheios de uma raiva antiga, de uma memória que não foi apagada. Ele não é um coadjuvante. Ele é o *testemunho*. O único que lembra como era antes do abismo. E quando ele ergue a bengala, não para atacar, mas para *marcar o chão*, como se estivesse traçando um círculo sagrado, um limite entre o que foi e o que será, a câmera foca em seu olho — e nele, uma veia negra se ramifica até a pupila, que brilha com um vermelho profundo, como um laser de advertência. Ele não é humano. Nem demônio. Ele é algo pior: um *guardião esquecido*. Alguém que escolheu ficar, mesmo sabendo que perderia tudo.
O contraste entre os personagens é o cerne da narrativa. A garota com teias de aranha não é uma vilã — ela é a vítima que se tornou guardiã. O rapaz de cabelos rosa não é o herói clássico — ele é o questionador, o que duvida até do próprio bem. A mulher em pânico não é fraca — ela é a representação da mente humana diante do incompreensível. E o velho? Ele é a história que ninguém quer lembrar. Cada um deles carrega uma versão diferente da mesma verdade: o abismo não vem de fora. Ele cresce dentro, alimentado pelo silêncio, pela negação, pela incapacidade de chorar em voz alta. E é por isso que o choro da garota, lágrimas roxas caindo em câmera lenta, é o momento mais poderoso da sequência. Porque é o primeiro sinal de que a humanidade ainda respira — mesmo em meio ao caos, mesmo com teias de aranha nas costas e sangue no vestido.
A ambientação é igualmente simbólica. As ruínas não são apenas cenário — são metáfora. Casas desmoronadas, telhados pendentes, janelas vazias: tudo isso representa estruturas sociais, morais, emocionais que já não sustentam mais nada. O céu vermelho não é apocalipse — é inflamação. Inflamação da alma coletiva. E as chamas que lambem o chão? Não são fogo comum. São *lembranças* queimando. Cada labareda é um segredo revelado, um trauma ressurgido. Até mesmo a poeira que paira no ar tem textura — não é cinza, é marrom avermelhado, como terra úmida após chuva de sangue. Nada nessa produção é acidental. Cada cor, cada sombra, cada movimento de câmera serve para imergir o espectador em um estado de tensão constante, onde a linha entre realidade e pesadelo se dissolve como açúcar em água quente.
E então, o clímax: o Ancião do Abismo ergue as mãos, e o chão se parte em rachaduras que irradiam luz vermelha — não como lava, mas como veias expostas. É um parto invertido. Em vez de vida surgindo, o mundo se abre para devorar o que resta dele. Nesse momento, a garota não recua. Ela dá um passo à frente. Seus braços se abrem, não em rendição, mas em *aceitação*. Ela não vai lutar contra o abismo. Ela vai *entrar* nele. Porque talvez, só talvez, a única forma de salvá-lo seja se tornar parte dele — e depois, de dentro, mudá-lo. É a ideia mais subversiva da obra: a redenção não vem da destruição do mal, mas da sua absorção, da sua transformação. E é nesse instante que o título Demônios? Não! São Garotas Perfeitas ressoa com toda a sua força. Porque a perfeição, aqui, não é imaculada. É quebrada, manchada, sangrando — e ainda assim, escolhendo amar.
O vídeo termina com um close no olho do velho, agora totalmente tomado pela veia negra, e no centro da pupila, um ponto vermelho que pulsa como um coração. A câmera se afasta, revelando que ele está de pé no topo de uma raiz gigantesca, olhando para baixo — para os dois jovens, ainda de mãos dadas, pequenos diante do colosso. Ele não sorri. Não chora. Só observa. E nesse olhar, há mil histórias não contadas: guerras perdidas, promessas quebradas, amores enterrados vivos. Ele é o custo da eternidade. E eles? Eles são a aposta na mudança. A aposta de que, mesmo em um mundo onde o abismo já venceu, ainda há espaço para um único gesto de bondade — como segurar a mão de alguém que se esqueceu de como ser humana.
O que torna Demônios? Não! São Garotas Perfeitas tão cativante não é a ação, embora ela seja espetacular. É a *intimidade* dentro do cataclismo. É a forma como um toque de mão pode ser mais revolucionário do que mil golpes de espada. É a coragem de chorar em plena batalha, sem vergonha. É a recusa em rotular: ela não é demônio, não é vítima, não é heroína — ela é *complexa*. E é essa complexidade que nos prende. Porque, no fundo, todos nós já fomos aquela garota: com teias invisíveis nas costas, sangue nas roupas, e um coração que ainda bate, mesmo quando o mundo já desabou ao nosso redor. A pergunta que fica, suspensa no ar como as pétalas cor-de-rosa, não é “eles vão vencer?”, mas “e se *nós* fôssemos eles?”. E nessa dúvida, está toda a magia da obra — e toda a sua verdade.

