(Dublagem) Ascensão do Guerreiro: O Filho que Chora na Laje de Pedra
2026-02-25  ⦁  By NetShort
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A cena abre com um homem de camisa branca, cabelos desalinhados, rosto marcado por cicatrizes finas — não de batalha, mas de tempo mal gasto, de noites sem sono e promessas quebradas. Ele caminha por uma rua estreita, típica de um vilarejo antigo, onde lanternas vermelhas pendem como olhos vigilantes e o chão de pedra está gasto pelo passo de gerações. Não há pressa em seus movimentos, mas há peso — um peso que se sente até na forma como ele segura um casaco marrom dobrado sobre o braço, como se fosse algo sagrado, ou talvez apenas um fardo que ainda não conseguiu largar. Esse é o primeiro sinal de que (Dublagem) Ascensão do Guerreiro não é uma história de luta física, mas de luta interna, de identidade rachada e reconstruída sob o peso da memória.

De repente, o silêncio é rompido. Três homens surgem — vestidos de preto, postura rígida, olhares vazios, como soldados de um exército que já esqueceu sua causa. O homem de branco não recua. Ele vira, com um movimento fluido que revela treino, e antes que os outros consigam reagir, já está entre eles. Um chute, um giro, um empurrão calculado — e dois caem como bonecos de pano. O terceiro tenta contra-atacar, mas é imobilizado com uma chave de braço brutal, enquanto o protagonista o segura pelo colarinho, olhando-o nos olhos com uma mistura de pena e raiva contida. A câmera se aproxima: sangue escorre do canto da boca do homem preso, mas ele não grita. Ele apenas respira, ofegante, como se estivesse esperando por aquilo. E então, a frase que muda tudo: *Rafael, o que você quer?* — uma pergunta que soa menos como um desafio e mais como um apelo. É aqui que percebemos: esse não é um confronto aleatório. É um encontro programado, carregado de história não dita.

O protagonista, Rafael, responde com calma assustadora: *Fica tranquilo, eu não vou te matar.* A ironia é tão densa que quase se pode tocar. Porque, claro, ele não vai matá-lo — não agora. Ele tem planos mais refinados, mais dolorosos. Ele quer que o homem entregue uma mensagem ao tal “Caio”. E quando perguntam *Que mensagem?*, Rafael sorri — um sorriso que não chega aos olhos, que só expõe os dentes como uma ameaça velada — e diz: *Diz para ele limpar bem o pescoço e me esperar. Daqui a três dias, eu quero ele morto.* A frase é dita com a mesma naturalidade com que se pede um café. É nesse momento que o espectador entende: este não é um herói. Nem um vilão. É alguém que já cruzou a linha há muito tempo, e agora só caminha em direção ao que resta dele mesmo.

A transição para a cena seguinte é genial: o mesmo homem, agora vestido com um terno marrom elegante, caminha por um campo aberto, sob um céu cinzento e úmido, como se o mundo inteiro estivesse segurando a respiração. Ele se aproxima de uma lápide simples, de pedra áspera, com caracteres chineses gravados — e a legenda revela: *Túmulo do Eduardo Valença*. A câmera foca nas letras, depois no rosto de Rafael, que se curva, toca a pedra com as pontas dos dedos, como se estivesse tentando sentir o pulso do morto. *Pai*, ele sussurra. E então, com voz trêmula, mas firme: *Eu sou um filho ingrato. Só agora eu vim te ver.* A dor aqui não é teatral. É visceral. É a dor de quem chegou tarde demais, mas ainda assim veio — porque, mesmo sendo ingrato, ainda é filho. A cena é filmada com planos longos, sem cortes apressados, permitindo que o silêncio entre as palavras seja tão forte quanto elas mesmas. É aqui que Ascensão do Guerreiro mostra seu verdadeiro poder: não na ação, mas na ausência dela — na pausa antes do grito, no olhar antes do golpe.

O que vem a seguir é ainda mais perturbador. Rafael continua falando ao túmulo, como se o pai pudesse ouvi-lo: *Daqui a três dias é seu aniversário. Eu quero que veja com seus próprios olhos, que eu matei o Caio!* A declaração é feita com os punhos cerrados, os olhos cheios de lágrimas que não caem — porque chorar seria fraqueza, e ele já não tem mais espaço para fraqueza. Ele se ajoelha, enterra as mãos na terra fresca, como se quisesse escavar o passado com as próprias unhas. E então, surge outro homem — vestido com um capote plástico transparente, como se estivesse protegido do mundo, mas não de si mesmo. Ele pergunta, com voz suave, mas firme: *O que tá fazendo?* Rafael levanta o rosto, sujo de terra e lágrimas secas, e responde com uma pergunta que ecoa como um trovão: *Por que perturba o túmulo de alguém?* O outro, então, solta uma frase que corta como uma faca: *Não entende que os mortos têm que descansar?* E Rafael, sem hesitar, grita: *Cai fora!* — e o ataque é imediato. Um soco, um chute, e o homem do capote cai, sangrando, mas ainda segurando uma arma. A violência aqui não é gratuita. Ela é simbólica: Rafael está lutando contra a própria consciência, contra a voz que insiste em lembrá-lo do que ele deveria ser, e não do que se tornou.

O clímax da cena é devastador. Enquanto o homem ferido jaz no chão, Rafael volta ao túmulo, escava com as mãos nuas, até que encontra um vaso cerâmico — azul e branco, antigo, coberto de terra. Ele o limpa com as mangas do terno, como se estivesse limpando a alma de alguém. E então, ergue o vaso, olhando para ele como se visse o rosto do pai dentro dele. Nesse instante, o homem no chão, ainda vivo, aponta uma pistola e grita: *Até ousa cavar o túmulo do seu próprio pai?* Rafael o encara, e sua resposta é uma das mais chilling da narrativa: *Você ainda é gente?* Não é uma pergunta. É uma constatação. Uma sentença. Porque, para Rafael, aquele que ousa questionar sua dor já deixou de ser humano. Ele não atira. Ele apenas olha — e o olhar é suficiente para que o homem no chão desvie os olhos, derrotado não pela força, mas pela absoluta ausência de compaixão.

A última imagem é Rafael, de pé, segurando o vaso, o céu escurecendo ao fundo, o vento agitando seus cabelos. Ele não sorri. Não chora. Ele apenas existe — como uma sombra que finalmente encontrou sua fonte de luz, mesmo que essa luz seja o fogo da vingança. E é nesse momento que entendemos o verdadeiro título da obra: (Dublagem) Ascensão do Guerreiro não fala de alguém que sobe ao topo por força ou habilidade. Fala de alguém que desce ao inferno pessoal — e, ao emergir, já não é mais o mesmo. Ele não ascendeu. Ele se transformou. E essa transformação custou um túmulo, um vaso, e três dias até o encontro com Caio — que, agora, não é mais um inimigo. É o espelho que Rafael precisa quebrar para finalmente ver quem realmente é.

O que torna essa sequência tão poderosa é a economia narrativa. Nenhum flashback explicativo. Nenhuma voz-over moralista. Tudo é mostrado através do corpo, do gesto, do silêncio. O sangue no canto da boca do homem preso não é só ferimento — é culpa. A terra nas mãos de Rafael não é só sujeira — é arrependimento. O vaso não é só um objeto — é a última conexão com um passado que ele jurou esquecer, mas que, no fundo, nunca deixou de carregar. E o nome *Caio*? Ele não é um personagem. É um símbolo. O nome do pecado que precisa ser expiado. O nome daquele que roubou algo que Rafael não sabia que tinha — até que o túmulo o lembrou.

Vale notar também a direção de arte: o contraste entre o vilarejo colorido, com suas lanternas e placas em chinês, e o campo desolado, onde o túmulo está isolado, é intencional. Um é o mundo exterior, cheio de regras e aparências. O outro é o interior — cru, desprotegido, onde só restam verdade e dor. E Rafael transita entre os dois como quem atravessa fronteiras invisíveis, sabendo que, após o terceiro dia, não haverá mais volta. Ele já escolheu seu lado. E seu lado é o da lápide, não da multidão.

Em resumo, essa cena de Ascensão do Guerreiro é um manifesto cinematográfico sobre o preço da vingança quando ela é confundida com justiça. Rafael não quer justiça. Ele quer testemunha. Quer que o pai veja — mesmo morto — que ele não foi fraco. Que ele não se curvou. Que ele, sim, é capaz de matar. Mas, ao mesmo tempo, ao cavar aquele túmulo, ele também está enterrando algo: a esperança de ser perdoado. Porque, no fim, o único que ele precisa convencer não é Caio. É o próprio Eduardo Valença. E talvez, só talvez, o vaso que ele segura contenha não cinzas, mas uma carta que nunca foi entregue — e que, agora, será lida com sangue nas mãos e terra nos joelhos.

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