A cena abre com um corredor gótico congelado, colunas cobertas de gelo, luzes difusas filtrando-se por janelas arqueadas, como se o tempo tivesse parado num suspiro. Três figuras em trajes táticos — duas com postura rígida, uma no centro com o casaco aberto, revelando ombros nus e uma expressão que oscila entre a inocência e a provocação — encaram alguém cujo rosto só aparece de costas: cabelos rosa vibrantes, jaqueta preta, colar com pedra verde. Nada é dito, mas o ar já está carregado de tensão elétrica, como se cada respiração fosse uma aposta arriscada. E então, ela sorri. Um sorriso que não é exatamente amigável, mas tampouco hostil — é o sorriso de quem sabe que está prestes a virar o jogo sem precisar levantar a mão. É aqui que começa a magia de *Demônios? Não! São Garotas Perfeitas*: não há demônios, apenas personagens que desafiam as categorias, que se recusam a ser encaixotados em rótulos de ‘herói’, ‘vilão’ ou ‘vítima’. E essa recusa é o cerne da narrativa.
O rapaz de cabelos rosa reage com uma expressão que poderia ser confundida com pânico — mãos erguidas, olhos arregalados, suor na testa — mas algo nele não bate. Ele não está assustado; está *atuando*. E é nesse instante que o leão surge. Não um leão qualquer, mas uma criatura imponente, com pelagem escura, crista espinhosa, olhos vermelhos ardentes e runas incandescentes percorrendo seu corpo como circuitos de energia antiga. A mão do rapaz se estende, toca suavemente a cabeça do animal, e o monstro, antes feroz, se acalma como um filhote. Aqui, o contraste é brutal: o que parecia fraqueza era, na verdade, controle absoluto. A ironia é deliciosa — enquanto os três observadores congelam em choque (com linhas dinâmicas explodindo ao redor, típicas do estilo shōnen), ele está ali, sorrindo, acariciando uma besta que poderia reduzir um exército a pó. Esse momento não é sobre poder bruto; é sobre domínio emocional, sobre a capacidade de transformar o caos em intimidade. E é justamente isso que torna *Demônios? Não! São Garotas Perfeitas* tão envolvente: a força não está no músculo, mas na sutileza da conexão.
Mas a verdadeira reviravolta vem logo depois, quando a câmera corta para um gato — sim, um gato — usando um gorro azul com uma coroa de feltro, olhos grandes e expressivos, sendo segurado por duas mãos humanas em um cenário de ruínas iluminadas pelo sol poente. A transição é absurda, quase cômica, mas não é aleatória. É uma quebra deliberada da gravidade dramática, um lembrete de que, mesmo em mundos sombrios, há espaço para o absurdo, para o afeto inesperado, para o ridículo que nos humaniza. Esse gato não é um mero *filler*; ele é um símbolo. Enquanto o leão representa o poder oculto e a majestade feroz, o gato representa a vulnerabilidade que todos escondem — e que, paradoxalmente, é a única coisa capaz de derreter até o coração mais endurecido. A sequência seguinte mostra os três personagens táticos com expressões de total desconexão: um com os olhos arregalados, outro com a mão na testa, como se tentasse processar o que acabara de ver, e a terceira, com lágrimas escorrendo, questionando sua própria sanidade. É nesse ponto que o título ganha sentido: eles estão lidando com *garotas perfeitas*, não com demônios. Porque garotas perfeitas não seguem lógica, não respeitam hierarquias, não se encaixam em manuais de combate. Elas simplesmente *existem*, e sua existência já é suficiente para desestabilizar o mundo.
Ainda assim, a narrativa não se contenta em brincar com expectativas — ela as esmaga. Quando o rapaz de cabelos rosa vira-se, com um sorriso irônico e um gesto teatral, a câmera foca em seus olhos: um verde intenso, o outro dourado, como se ele carregasse duas almas em um só corpo. As palavras ‘顶魔’ (Dǐng Mó — ‘Cúpula do Demônio’) surgem em fundo neon, mas ele ri. Ele ri porque sabe que o rótulo é uma armadilha. Ele não é um demônio; ele é alguém que escolheu usar a máscara do demônio para proteger algo mais precioso. E é nesse momento que a protagonista central — aquela de cabelos curtos, casaco aberto, pele levemente avermelhada — faz seu movimento decisivo: levanta o dedo indicador, como se estivesse prestes a revelar um segredo cósmico. Sua expressão é séria, mas seus olhos brilham com uma chama interna. Ela não está com medo. Ela está *curiosa*. E essa curiosidade é mais perigosa que qualquer arma.
A atmosfera muda novamente. Agora, o fundo é um redemoinho de vermelho e roxo, como se o próprio espaço estivesse se dobrando sob o peso de sua presença. Ele se inclina para frente, punhos cerrados, e sussurra algo que não ouvimos — mas que, pela forma como os outros reagem, deve ser devastador. A garota central, então, é transformada em estátua de mármore, rachada, congelada no tempo, enquanto penas brancas flutuam ao redor como se o mundo estivesse se desfazendo em sonho. Isso não é morte. É *suspensão*. É a maneira que *Demônios? Não! São Garotas Perfeitas* tem de mostrar que o verdadeiro conflito não é físico, mas existencial: o que acontece quando alguém decide parar de jogar o papel que lhe foi atribuído?
E então, a grande revelação: Donzela do Caixão Branco. A imagem é impactante — uma figura feminina sentada sobre um caixão, vestida com um vestido de noiva rasgado, manchado de sangue, com costuras visíveis no rosto, como se tivesse sido remendada após uma tragédia. Seus olhos, primeiro fechados, se abrem — vermelhos, intensos, cheios de uma alegria perturbadora. Pétalas de rosa caem ao seu redor, mas não há romantismo aqui; há ritual, há teatro, há uma performance macabra que desafia a noção de beleza e pureza. O nome ‘Donzela do Caixão Branco’ não é um título de honra; é uma sentença. Ela não é uma vítima — ela é a artista da própria decadência. E quando ela levanta a mão, com unhas longas e sujas, e caminha entre escombros, o céu atrás dela é vermelho como sangue coagulado. Ela não está voltando à vida. Ela está *reivindicando* sua existência após a morte simbólica. Essa cena é um manifesto visual: a feminilidade não precisa ser suave, delicada ou redentora. Pode ser crua, sangrenta, e ainda assim hipnotizante.
O que conecta todas essas imagens — o leão, o gato, a estátua, a noiva sangrenta — é a recusa em ser definido. Em *Demônios? Não! São Garotas Perfeitas*, ninguém é apenas um soldado, um mágico, uma vítima ou uma vilã. Cada personagem é um conjunto de contradições: o rapaz que parece frágil mas controla bestas, a garota que sorri enquanto congela o mundo, a noiva que dança entre cadáveres com um sorriso de criança. E é justamente essa complexidade que os torna *perfeitos* — não no sentido de imaculados, mas no sentido de completos, de inteiramente humanos, mesmo quando suas ações parecem sobrenaturais.
A direção visual é igualmente inteligente. O uso de luz e sombra não é meramente estético; é narrativo. Nas cenas de confronto, os raios de luz atravessam as janelas como julgamentos divinos, mas nunca iluminam completamente os rostos — sempre há uma sombra escondendo parte da verdade. Já nas cenas do gato, a luz é dourada, quente, quase sagrada, como se o cotidiano fosse o verdadeiro milagre. E quando a Donzela do Caixão Branco aparece, o vermelho domina, mas não de forma agressiva — é um vermelho profundo, rico, como vinho velho, sugerindo que o sangue também pode ser herança, memória, identidade.
Outro detalhe fascinante é a linguagem corporal. Observe como o rapaz de cabelos rosa nunca se posiciona frontalmente durante os momentos de tensão — ele está sempre de perfil, de costas, ou em meio a um gesto que esconde sua intenção. Isso não é covardia; é estratégia. Ele entende que, em um mundo onde todos esperam que você mostre suas cartas, a verdadeira vantagem está em permanecer enigmático. Já a protagonista central, mesmo quando está congelada em mármore, mantém a postura ereta — como se sua essência não pudesse ser quebrada, mesmo que seu corpo fosse. Essa consistência física reflete sua resistência interna, sua recusa em ser anulada.
E não podemos ignorar o papel do humor. A inserção do gato com gorro não é só um *cutaway* cômico; é uma ferramenta narrativa crucial. Em um universo onde cada gesto carrega peso simbólico, o absurdo serve como válvula de escape — mas também como crítica. Ele nos lembra que, por trás de toda grandiosidade épica, há um ser vivo que ainda quer ser acariciado, que ainda tem medo do veterinário, que ainda acha que um gorro lhe dá autoridade. Esse equilíbrio entre o sublime e o ridículo é raro, e é exatamente o que eleva *Demônios? Não! São Garotas Perfeitas* acima de produções convencionais.
Ainda mais interessante é como a obra brinca com o conceito de ‘perfeição’. Na cultura popular, ‘garota perfeita’ geralmente evoca uma figura idealizada: educada, bonita, obediente. Aqui, a perfeição é outra: é a capacidade de ser inclassificável, de mudar de forma sem perder a essência, de ser tanto a presa quanto o predador, tanto a vítima quanto a justiceira. A garota com o casaco aberto não é perfeita porque é forte — ela é perfeita porque aceita sua fragilidade como parte de sua força. O rapaz de cabelos rosa não é perfeito porque controla leões — ele é perfeito porque sabe quando fingir medo, quando sorrir, quando calar-se. E a Donzela do Caixão Branco? Ela é perfeita porque transformou sua dor em arte, sua morte em performance, seu sofrimento em poder.
O final da sequência — com a noiva sangrenta caminhando entre escombros, pétalas voando, olhos vermelhos fixos na câmera — não é um *cliffhanger* tradicional. É um convite. Um convite para questionar: quem realmente está no caixão? Quem está enterrado? E quem, afinal, tem o direito de decidir o que é ‘normal’? *Demônios? Não! São Garotas Perfeitas* não oferece respostas fáceis. Oferece perguntas que ficam grudadas na mente como tinta indelével. E talvez esse seja seu maior feito: fazer com que o espectador saia da tela não com a sensação de ter visto uma história, mas com a sensação de ter sido *desafiado* — a repensar seus próprios rótulos, suas próprias prisões invisíveis.
Em suma, esta não é uma série sobre batalhas épicas ou superpoderes absurdos. É uma série sobre identidade, sobre a coragem de ser estranho, de ser contraditório, de ser *imperfeito* de maneira tão completa que isso se torna perfeição. Cada quadro, cada gesto, cada mudança de cor no fundo é uma peça de um quebra-cabeça maior: o que significa ser humano quando o mundo insiste em te classificar? A resposta, como sempre, está nas garotas — não nas demônidas, não nas vítimas, não nas heroínas tradicionais, mas nas *garotas perfeitas*, com suas cicatrizes, seus gorros ridículos, seus leões domesticados e seus caixões brancos. E se você ainda duvida, basta lembrar: *Demônios? Não! São Garotas Perfeitas*. E elas já estão aqui, caminhando entre nós, sorrindo com os olhos vermelhos, esperando que você finalmente as veja — não como monstros, mas como pessoas. Completas. Terríveis. Lindas.

