A primeira imagem que nos é apresentada não é de um campo de batalha, nem de uma cidade em ruínas, mas sim de um ambiente quase idílico — um onsen tradicional, envolto em névoa cor-de-rosa, com luzes suaves e pétalas de cerejeira flutuando no ar. Homens relaxam em cadeiras de bambu, pés mergulhados em baldes de água quente, enquanto figuras femininas vestidas em quimonos rosa atendem com gestos delicados. Tudo parece perfeito… até que três silhuetas escuras atravessam a entrada, como se o próprio destino tivesse decidido interromper esse momento de paz. Eles entram com armaduras pretas, espadas à cintura, rostos marcados por cicatrizes e olhares que já viram demais. Um deles, o líder, tem uma expressão que oscila entre fúria contida e choque absoluto — como se estivesse prestes a gritar, mas ainda não tivesse encontrado as palavras certas para descrever o que seus olhos estão vendo.
É nesse instante que o espectador percebe: este não é um simples banho. Este é um *teatro*. E os atores não são humanos comuns. Atrás dos clientes, há criaturas com pele enrugada, olhos vazios, sorrisos distorcidos — e, mais surpreendentemente, serventes com corpos de aranha, cujas pernas articuladas se movem com uma graça inquietante. Um deles, em particular, carrega uma bandeja com duas xícaras fumegantes, seu rosto humano exibindo um sorriso forçado, quase patético, como se soubesse que sua existência é uma piada cruel do universo. Ele tropeça. A xícara cai. O líquido escuro se espalha pelo chão de madeira, e, num movimento rápido e surreal, ele sobe ao teto, agarrando-se com suas pernas de aranha, enquanto sua parte humana se contorce, segurando um pano branco como se implorasse por misericórdia. A cena é absurda, mas não ridícula — é tragicômica, uma metáfora viva sobre a dualidade da subserviência e da monstruosidade.
Demônios? Não! São Garotas Perfeitas — essa frase, que poderia ser um título irônico, ganha sentido aqui. As “garotas” não são apenas as que vestem quimonos e massageiam os pés dos clientes; elas também são as que têm oito pernas, olhos vermelhos e sorrisos que congelam o sangue. Elas não atacam imediatamente. Elas *servem*. Elas *cuidam*. Elas *sorriem*. E é justamente essa normalização do estranho que torna a atmosfera tão perturbadora. O protagonista, aquele com a cicatriz no rosto e o suor na testa, não está apenas confuso — ele está *traumatizado*. Seu grito, capturado em close-up, é um grito de quem viu algo que não deveria ter visto, algo que desafia sua compreensão do mundo. Ele segura sua espada com força, mas seus dedos tremem. Ele não sabe se deve lutar ou fugir. E então, como se o universo tivesse pressa em responder sua dúvida, surge um novo personagem: um jovem de cabelos rosa, casaco preto, colar com cruz invertida e um sorriso que parece ter sido desenhado por um artista que odeia felicidade. Ele está ali como se fosse o dono do local, como se tudo aquilo fosse apenas parte do serviço premium.
A interação entre ele e o protagonista é um duelo de linguagem corporal. Enquanto o herói está tenso, punhos cerrados, respiração ofegante, o homem de cabelos rosa mantém os braços cruzados, depois os abre em gesto de boas-vindas, como se dissesse: *“Relaxe, você está no lugar certo.”* E, de fato, ele está. Porque dez minutos depois — e aqui a ironia atinge seu ápice — os três guerreiros estão sentados lado a lado, cada um sendo atendido por duas garotas em quimonos, os olhos fechados, os rostos iluminados por um sorriso bobo, com pétalas de sakura girando ao redor. Um deles até solta uma risada sonora, com saliva escorrendo do canto da boca, enquanto nuvens de vapor e símbolos de felicidade flutuam acima de suas cabeças. É uma transformação tão abrupta que o espectador quase ri — até lembrar que, ao fundo, os serventes-aracnídeos continuam circulando, e que o homem de cabelos rosa agora segura um cartão VIP que brilha com energia mágica, como se estivesse oferecendo um upgrade para o inferno.
Mas a verdadeira virada vem quando o personagem de cabelos escuros, aquele que antes parecia o mais racional dos três, abre os olhos. E o que ele vê o faz paralisar. Sua expressão muda de relaxamento para puro terror. Interrogações flutuam ao seu redor, como se sua mente tivesse entrado em colapso. Ele não entende. Ninguém entende. E é nesse momento que o vídeo corta para uma cena completamente diferente: um salão em ruínas, iluminado por uma luz violeta sinistra, onde uma figura colossal emerge do chão — uma mulher com cabelos brancos, olhos roxos brilhantes, e um corpo que combina elegância humana com a anatomia de uma aranha gigante. Ela não é um monstro aleatório. Ela é *a* rainha. Ela é a origem. Ela é a razão pela qual o onsen existe. E ela não está zangada. Ela está *divertida*.
Seus movimentos são fluidos, letais, cheios de intenção. Ela ergue suas pernas esqueléticas, e raios de energia violeta saem delas como se fossem feixes de laser. Ela perfura paredes, derruba colunas, e, no final, sorri — um sorriso que não é de vitória, mas de *aceitação*. Como se dissesse: *“Finalmente, vocês entenderam.”* E é aí que o título Demônios? Não! São Garotas Perfeitas ganha toda sua profundidade. Essas não são criaturas do mal. Elas são entidades que assumiram papéis sociais — serviçais, anfitriãs, protetoras — porque, em algum ponto, alguém decidiu que era mais fácil lidar com elas assim do que encarar o que elas realmente representam. Elas não querem destruir o mundo. Elas querem que o mundo *as receba*.
O contraste entre as duas partes do vídeo é deliberado e brilhante. A primeira metade é uma comédia de costumes com toques de horror psicológico; a segunda é uma epopeia sombria com elementos de fantasia gótica. E o elo entre elas é a mesma pergunta que o protagonista não consegue formular: *O que é real?* Quando ele está sendo massageado por uma garota com olhos sem pupilas, ele sente prazer. Quando ela aperta seu pescoço com uma das pernas de aranha, ele ainda sorri. Isso não é fraqueza. É adaptação. É sobrevivência. E talvez, só talvez, seja também uma forma de amor distorcido — o tipo de amor que nasce quando você passa tanto tempo com alguém que começa a acreditar que suas garras são apenas luvas decorativas.
A direção visual é impecável. A paleta de cores — tons de rosa, violeta e cinza — cria uma atmosfera que oscila entre sonho e pesadelo. Os detalhes são obsessivos: as teias de aranha bordadas nos quimonos, os padrões geométricos nas armaduras dos guerreiros, o modo como a luz atravessa a névoa, criando halos ao redor das figuras. Cada quadro é uma pintura, e cada transição é uma revelação. O uso do slow motion quando o copo cai, seguido pelo movimento acelerado da aranha-humana subindo ao teto, é um exemplo perfeito de como o ritmo pode manipular a emoção do espectador. Você pensa que está assistindo a uma comédia. De repente, você está preso em um pesadelo. E então, como num passe de mágica, você está de volta ao onsen, rindo junto com os personagens — até perceber que o riso deles soa um pouco *demais* como o de alguém que acabou de assinar um contrato com o submundo.
O personagem de cabelos rosa é, sem dúvida, o coração dessa narrativa. Ele não é o vilão. Ele não é o herói. Ele é o *mediador*. Ele representa a indústria da ilusão — aqueles que constroem mundos onde o impossível é rotina, onde o terrível é embalado em seda e servido com chá quente. Ele não precisa gritar. Ele só precisa sorrir. E quando ele mostra o cartão VIP, com suas chamas douradas e letras brilhantes, ele não está vendendo acesso. Ele está oferecendo *paz de espírito*. Porque, afinal, se você pode pagar pelo VIP, você não precisa mais questionar se as garotas são demoníacas. Você simplesmente as aceita — como parte do pacote.
E é aqui que Demônios? Não! São Garotas Perfeitas se torna mais do que uma série de cenas chocantes. Ela é um espelho. Ela reflete nossa própria tendência de domesticar o que nos assusta, de transformar o grotesco em *experiência*, de pagar para não precisar pensar. Quantas vezes, na vida real, nós ignoramos o estranho, o desconfortável, o *diferente*, desde que ele nos sirva com educação e um sorriso bem treinado? O onsen não é um lugar fictício. É uma metáfora para qualquer sistema que funcione com base na negação coletiva. E os três guerreiros? Eles são nós. Eles entram com espadas, prontos para lutar contra o mal. Saem com os pés molhados, os músculos relaxados e um cartão VIP na mão — e, no fundo, eles sabem que foram derrotados. Mas que derrota deliciosa.
A última cena, com a rainha aranha erguendo-se no salão destruído, não é um clímax. É uma conclusão poética. Ela não ataca. Ela *observa*. Ela sabe que já venceu. Porque o verdadeiro poder não está em destruir, mas em fazer o inimigo se sentir em casa. E quando o protagonista, no final, abre os olhos e vê o rosto da garota que o massageava — agora com olhos roxos, presas visíveis e teias saindo de suas costas — ele não grita. Ele pisca. E, por um segundo, ele quase sorri. Porque, afinal, ela foi *perfeita*.
Demônios? Não! São Garotas Perfeitas não é apenas uma série. É um convite. Um convite para entrar no onsen, sentar-se na cadeira de bambu, deixar que as mãos suaves façam seu trabalho, e perguntar, bem baixinho, antes de adormecer: *“Quem, afinal, é o monstro aqui?”* A resposta, claro, está no reflexo da xícara derramada — onde, por um instante, você vê seu próprio rosto, sorrindo, com oito pernas invisíveis se movendo sob a mesa.

