Ver o homem de terno cinza se ajoelhar e oferecer o relógio foi um momento chocante em Já tivemos uma casa. Mostra como o dinheiro e o status podem ser usados para humilhar. A expressão de desespero dele contrasta fortemente com a frieza de quem está no comando. Uma crítica social afiada disfarçada de drama familiar.
A direção de arte em Já tivemos uma casa é impecável. Os ternos bem cortados, o sofá moderno e a decoração luxuosa contam tanto quanto os diálogos. Cada personagem tem um visual que reflete sua personalidade e posição na hierarquia. A mulher de veludo roxo, por exemplo, impõe respeito apenas com sua presença.
O senhor mais velho com a bengala em Já tivemos uma casa parece ser a chave de tudo. Sua presença silenciosa e seu olhar severo sugerem que ele é o verdadeiro patriarca. A forma como os outros reagem a ele, mesmo sem ele falar muito, adiciona uma camada de respeito tradicional à trama moderna.
O que mais me prende em Já tivemos uma casa são as microexpressões. O choque nos olhos do homem de óculos verdes, o medo disfarçado do homem de terno cinza, a frieza calculista do protagonista. Não precisa de gritos para sentir a tensão. É uma aula de atuação contida que prende a atenção do início ao fim.
A mistura de roupas tradicionais e modernas em Já tivemos uma casa simboliza o choque de valores. De um lado, a tradição representada pelo idoso e pelo protagonista calmo; do outro, a ostentação e o desespero dos mais jovens. É um reflexo interessante de como a sociedade lida com autoridade e sucesso hoje em dia.